O homem dono de 120 Citroëns: um mergulho profundo no CitroMuseum

Esqueça os arquivos estéreis de propriedade da empresa em Paris. Henri Fradet está vencendo a batalha pela alma da herança automotiva francesa.

Ele não é uma corporação. Ele é apenas um cara com muito dinheiro e muita paciência. Nos últimos 40 anos, este entusiasta francês caçou 122 Citroëns do pós-guerra. Ele não os comprou a granel. Ele não os herdou. Ele os rastreou por todo o país, concentrando-se nos sobreviventes de baixa quilometragem que nunca viram uma oficina.

Agora, eles moram em Castellane.

É uma pequena cidade no sul dos Alpes, longe do brilho da Riviera. A coleção tem nome: CitroMuseum. É menos um armazém e mais um santuário. Se você está se perguntando onde ver a maior coleção privada da Citroën do mundo, é aqui. Mas a história está nos detalhes. Os carros específicos. Aqueles que deveriam ter morrido décadas atrás, mas não morreram.

As Três Câmaras do Tempo

Você entra no CitroMuseum e o ar muda. Cheira a papel velho e óleo. O espaço é dividido em três zonas distintas, cada uma atuando como uma cápsula do tempo.

A primeira câmara está repleta de história. É tudo sobre o Traction Avant. E o DS. Os modelos ID ganham seu próprio espaço ao lado dos 2CVs e seus muitos, muitos spin-offs. Depois, há a nova ala. É menor, mas embalado. Esta seção contém os carros dos anos 70 aos 90. A época em que a Citroën deixou de fazer sentido e começou a fazer arte.

Fradet não estacionava apenas caixas de metal numa sala. Ele foi curador. Cada canto tem desordem. Documentos originais de P&D. Sinalização rara de revendedor. Modelos em miniatura de carros que nunca chegaram à produção. Parece vivido. Intencional.

“Fradet prefere carros não restaurados e de baixa quilometragem. Ele não quer perfeição. Ele quer história.”

A tração que não morreria

Vamos começar com o Traction 15/6 de 1952. Tecnicamente, o Traction Avant foi lançado em 1934. Portanto, é um carro pré-guerra. Mas a Citroën continuou a construí-los até 1957. Essa longevidade é a única razão pela qual este exemplo específico consegue conviver com a gangue do pós-guerra.

Tem um motor de seis cilindros em linha. 2,9 litros. 77 cavalos de potência. Pelos padrões modernos? Patético. Pelos padrões da década de 1950? Civilizado. Este chassi específico percorreu cerca de 40.000 quilômetros (25.000 milhas). É isso. Desde 1952.

Um proprietário anterior comprou-o em 1973. Ele manteve-o dentro de casa. Ele não dirigiu muito. Quando o dono morreu, o carro parou. Esperou. Até 2016, quando Fradet o resgatou da obscuridade e o estacionou aqui, ao lado de carros bem mais valiosos.

Chassi número 32: o primeiro desse tipo

Este é o captador de manchetes. O DS preto 1955.

Se você perguntar a qualquer colecionador qual modelo antigo do DS é mais significativo, a resposta geralmente é “número 32”.

A Citroën iniciou a produção em massa em fevereiro de 1956. Antes disso, eles construíam os protótipos à mão. E os primeiros modelos de produção. Este carro é uma daquelas anomalias construídas à mão. É o 14º DS vendido no mundo. O exemplo mais antigo de produção em série sobrevivente.

Pense nisso. Os primeiros 13 provavelmente foram descartados ou travados. Eles eram protótipos. Eles estavam testando mulas. O número 32 sobreviveu.

Saiu da fábrica com destino a uma concessionária em Valence. Era um carro de demonstração. Mas o revendedor não o devolveu. Ele vendeu para um cliente fiel. Esse cliente ficou com ele. Depois outro dono. Depois outro. Quando Fradet o comprou, ele tinha 69 mil quilômetros rodados.

Passou 13 anos num museu holandês antes de se mudar para França. A quilometragem importa? Para alguns, sim. Para Fradet, o fato de existir é a única métrica que conta. É um fantasma que se recusou a desaparecer.

O ID 19: uma falha prática

O DS 19 tinha um irmão. O ID 19. Era basicamente o mesmo carro. Mesmo chassi. Mesmo motor. Mas sem a suspensão hidráulica hidropneumática. Sem a magia de autonivelamento. Era mais barato. Mais maçante.

Mas este ID 19 de 1963 foi finalizado em Bleu de Provence. Um tom de azul estranho e específico que quase nenhum outro carro possui.

Fradet comprou isto do segundo dono. Há uma história anexada à compra. Um soluço mecânico. Ele estava na Bélgica quando o comprou. Ele decidiu testar os freios. Ou talvez a direção. Algo deu errado com a bomba de alta pressão. Uma válvula emperrou.

Ele consertou. À beira de uma rodovia belga.

Depois ele dirigiu para a Noruega. Onde ele morava na época. São 27.000 quilômetros. Desde novo. Foi conduzido. Realmente motivado. Ao contrário dos espécimes imaculados nas outras salas, esta identificação tem cicatrizes. Tem vida.

Por que isso é importante

Você pode se perguntar por que alguém colecionaria 120 carros. A resposta não é financeira. É preservação.

Esses carros estão desaparecendo. O DS é icônico, sim. Mas o ID 19? A Ami? A Dyane? Eles são esquecidos. Fradet se lembra deles.

O CitroMuseum não é apenas uma vitrine. É uma rejeição da ideia de que os carros devem ser restaurados com perfeição para serem valiosos. É um argumento para autenticidade. Pela originalidade. Para o carro como era quando o